rss search

Apego

line

Foto: projeto #asruasfalam


Ele já me deixou na mão diversas vezes. Fez barulhos inexplicáveis e piscou luzes estranhas, jamais vistas. Parou quando tinha que ir. Andou sozinho quando ninguém queria que ele andasse. Soltou fumaça como um maconheiro e seu charuto da paz. Perdeu apetrechos. Foram-lhe arrancados por mãozinhas de quem brinca, apetrechos de certo modo importantes, como aquele que você usa quando lembra de avisar ao vizinho que vai virar à esquerda. Aquele outro que leva pra longe a água da chuva também caiu. Entupiu-se de poeira e barro, mas não ligou, já que nunca gostou muito de banho mesmo. Foi terror e casa. Xingado e amado. Liberdade e escudo. Carregou gente nova que nasceu. Gente do fundo do coração que já morreu. Foi primeiro dia de aula de uns e motel quando não havia grana, ou porque não dava mesmo tempo de esperar. Tocou música de iPod na fita cassete. Foi palco, picadeiro, trocador, estúdio, sala de espera, cama. Mas hoje, depois de tentativas para que ficasse sempre mais um pouco, ele vai embora para as mãos de quem tem um filho de dez meses pronto para novas aventuras. Ontem ele parecia comovido, chovia só em cima dele, uma chuva fininha na estrada.
A garagem toda dada, se refestela à espera do novo dono. Não se apega em lembrar dos bons momentos vividos. Não se importa de ficar só por uns dias, assim observa melhor a rua. E escolhe seu novo parceiro tranquilamente. Se todos fossem garagem não haveria essas faltas.



Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>