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Casa nova

Depois de cinco anos de namoro, um filho de dois anos e sete meses, termos morado juntos por um ano e meio na casa de meu pai com meus irmãos; e depois de brigas familiares por pura falta de jogo de cintura de todos- o que nos levou a viver como um casal, mas que vive em casa separadas e divide as contas, veja só, alugamos nossa primeira casa.

Pequena linda e fresca. Sem quintal, mas com uma garagem acolhedora e espaçosa. E um corredor com sol onde vou colocar um banco reciclado e minhas plantas. Aquelas que vejo nas revistas de decoração e espero ter mão boa para que elas não morram.

Bem, quem casa, mas não faz casamento nem festa, não ganha presentes. E essa é nossa situação. Fiquei pensando que se enxoval ainda fosse moda, eu estaria com menos coisas para correr atrás hoje. Não tenho nada, nem um pano de prato. Mentira. Ganhei uma geladeira Brastemp, linda, escolhida na loja por mim. Um jogo de pratos da cunhada e uma jarra kitsh de plástico cor de laranja em formato de abacaxi com tampa verde, da colega de trabalho. Já são coisas preciosas.

Da casa do pai, com devida permissão, comecei a resgatar móveis possíveis de serem usados novamente com um pouco de trato. Um dom que não temos. Mas Alex garante que vai transformar um por um e que eu vou gostar muito.

Nos primeiros dias após fechar contrato pirei na internet. Olhava pro cartão de crédito e quase dava o clique de finalizar compra. Mas me segurei e continuo segurando até agora. Nos mudaremos no fim do mês e nem a almofadas da decoração comprei. Mas pra que, se nem sofá temos ainda?

O que eu faço? Ando fazendo assim: viajando nas coisas lindas que desejo e em outras que terei e respiro fundo. Li que a casa a gente faz vivedo nela, conhecendo-a, deixando que ela nos conheça. Então vou começar com o pouquinho que temos. E o filho vai gostar de ter um quarto só pra ele, ainda que com pouca decoração hoje, mas com um amor infinito.

 


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Brechó inglês

Recebi uma sacola de Londres cheia de roupas. Veio de uma amiga tão querida, uma irmã de alma, uma filha de outra vida, uma celebridade no meu coração. Vintage me faz sorrir e me faz mais bonita, mais antiguinha com ares modernosos. Senti o cheiro daquela terra através das roupas de minha amiga, agora minhas melhores peças. Me vi no bus 29, entre um chuvisco e uma corrida ao Sainsburys.

Vou usar as saias, as camisas com um pouco daquele ar que acabei por (re)adaptar para o lado de cá. Minha irmã de pai e mãe, saiu no lucro. É toda magrinha e coube melhor em alguns vestidinhos e tops.

Entre Zaras e Topshops, fui relembrando o caminho que escolhi de volta pra casa, depois de 3 anos entre os ingleses e o resto do mundo todo. Era uma vida louca e boa. Estudar e ser garçonete. Depois ir para as baladas e ser vendedora. Depois viajar para países vizinhos por bagatelas. E assim me via no mundo. Conseguia chegar na menor partícula que forma o ser humano, como um pixel. Era isso que eu era: um pixel no mundo. E é isso que continuo sendo, mas lá em terras estrangeiras conseguia me reconhecer nessa vastidão, como um pedacinho que forma todas as coisas. Talvez sentisse isso por conta da distância, ou pelo poder de andar por ruas onde outras línguas eram faladas, senão a minha.

Deixei Londres e alguns bons e eternos amigos, que jamais voltarão a viver em suas terras natais: eles se inglesaram. E, embora não aconteça para todos, não é difícil se adaptar àquela cidade. Ela te abraça ao mesmo tempo que te consome. Te dá euforia e solidão como só as metrópoles sabem fazer. Mas te entra na alma de uma maneira tão feroz, que por vezes você acredita que está no lugar errado e tem que voltar para a sua Inglaterra.

Por hora, visto minha blusa ganhada de mangas coladinhas e vou tomar uma cerveja bem gelada.


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