rss search

next page next page close

Vou te contar o final do filme

Vi Holy Motors, semana passada no Sesc Sorocaba. Nessas sessões de cinema de arte, que recebe geralmente bons apreciadores de filmes desse gênero, gente que entende, que critica, que não se agrada fácil, mas que gosta de ir, tem que ver de perto, conhecer.

Em linhas gerais, a sinopse pode parecer fácil, mas não é. Aliás é um todo muito difícil de elogiar ou xingar.
Um homem que pode ser um ator de si mesmo, aparentemente rico e de negócios, anda em sua limosine branca com sua motorista elegante pelas ruas de Paris, preparando-se para “encontros”, como eles chamam, que seria como a interpretação de um personagem.

A narrativa é linear, mas não palpável. Me perdi, me encontrando. Porque o que fazemos no cinema é tentar entender, por mais absurdo que seja o que vemos na tela. Mas não achava ligações e nem porquês. Não encontrei porque não tinha nada disso.
Meu amigo Danilo Rezende, que me apresentou a esse filme absurdamente fantástico, disse que ele foi aplaudido em pé durante 15 minutos em Cannes. O que sentia quem o aplaudiu durante esse tempo todo?

Conhecemos roteiros. Por mais sinistros ou sem sentido, nos sentimos confortáveis na cadeira do cinema diante de obras de arte. Porque tudo o que vemos, por mais que se diga original, nos é familiar. Pode nos aborrecer, horrorizar ou romantizar, mas nos é próximo de alguma maneira, em algum lugar, na forma de receber cinema.

Holy Motors não. É uma quebra dos padrões de roteiros, de personagens. É um estranho no ambiente; uma coisa que não sabemos definir se nos agrada ou temos que repelir. Então, o que eu sentia a cada parte do filme, não era surpresa, embora meu queixo tenha caído algumas vezes. Não era indignação, nem descontentamento, nem alegria, nem euforia. Eu apenas sentia e não denominava. Respirava e não precisava pensar ou descrever para o meu cérebro perceber o que vinha de encontro com a minha carne: isso é arte! Ninguém me disse mas só pode ser. Arte na telona, superior, inteligente, benigna e estranha, é claro! bizarra por vezes.

O silêncio que se fez massivo na sala ao final do filme, conversava com cada pessoa ali presente, todos ouviam e ninguém podia responder.
Fui pra casa pensando que não estamos preparados para o diferente. Ele nos confunde quando é verdadeiro. Seja no cinema ou na vida, não sabemos lidar com a emoção do diferente. Não sabemos agir, quando tudo o que temos que fazer é só sentir. Sem nos meter com escolhas definidas.


next page next page close

Apego

Foto: projeto #asruasfalam


Ele já me deixou na mão diversas vezes. Fez barulhos inexplicáveis e piscou luzes estranhas, jamais vistas. Parou quando tinha que ir. Andou sozinho quando ninguém queria que ele andasse. Soltou fumaça como um maconheiro e seu charuto da paz. Perdeu apetrechos. Foram-lhe arrancados por mãozinhas de quem brinca, apetrechos de certo modo importantes, como aquele que você usa quando lembra de avisar ao vizinho que vai virar à esquerda. Aquele outro que leva pra longe a água da chuva também caiu. Entupiu-se de poeira e barro, mas não ligou, já que nunca gostou muito de banho mesmo. Foi terror e casa. Xingado e amado. Liberdade e escudo. Carregou gente nova que nasceu. Gente do fundo do coração que já morreu. Foi primeiro dia de aula de uns e motel quando não havia grana, ou porque não dava mesmo tempo de esperar. Tocou música de iPod na fita cassete. Foi palco, picadeiro, trocador, estúdio, sala de espera, cama. Mas hoje, depois de tentativas para que ficasse sempre mais um pouco, ele vai embora para as mãos de quem tem um filho de dez meses pronto para novas aventuras. Ontem ele parecia comovido, chovia só em cima dele, uma chuva fininha na estrada.
A garagem toda dada, se refestela à espera do novo dono. Não se apega em lembrar dos bons momentos vividos. Não se importa de ficar só por uns dias, assim observa melhor a rua. E escolhe seu novo parceiro tranquilamente. Se todos fossem garagem não haveria essas faltas.


Vou te contar o final do filme

Vi Holy Motors, semana passada no Sesc Sorocaba. Nessas sessões de cinema de arte, que...
article post

Apego

Ele já me deixou na mão diversas vezes. Fez barulhos inexplicáveis e piscou luzes...
article post