rss search

next page next page close

Apego

Foto: projeto #asruasfalam


Ele já me deixou na mão diversas vezes. Fez barulhos inexplicáveis e piscou luzes estranhas, jamais vistas. Parou quando tinha que ir. Andou sozinho quando ninguém queria que ele andasse. Soltou fumaça como um maconheiro e seu charuto da paz. Perdeu apetrechos. Foram-lhe arrancados por mãozinhas de quem brinca, apetrechos de certo modo importantes, como aquele que você usa quando lembra de avisar ao vizinho que vai virar à esquerda. Aquele outro que leva pra longe a água da chuva também caiu. Entupiu-se de poeira e barro, mas não ligou, já que nunca gostou muito de banho mesmo. Foi terror e casa. Xingado e amado. Liberdade e escudo. Carregou gente nova que nasceu. Gente do fundo do coração que já morreu. Foi primeiro dia de aula de uns e motel quando não havia grana, ou porque não dava mesmo tempo de esperar. Tocou música de iPod na fita cassete. Foi palco, picadeiro, trocador, estúdio, sala de espera, cama. Mas hoje, depois de tentativas para que ficasse sempre mais um pouco, ele vai embora para as mãos de quem tem um filho de dez meses pronto para novas aventuras. Ontem ele parecia comovido, chovia só em cima dele, uma chuva fininha na estrada.
A garagem toda dada, se refestela à espera do novo dono. Não se apega em lembrar dos bons momentos vividos. Não se importa de ficar só por uns dias, assim observa melhor a rua. E escolhe seu novo parceiro tranquilamente. Se todos fossem garagem não haveria essas faltas.


next page next page close

Da barriga

Foto: Pinterest


Se sofro ninguém vê. Tenho filho pra criar, não dá tempo de sofrer.
Mas, quem se aproxima para perceber que alma é essa, descobre sem querer pelos meu cabelos, que sofro. Eles estão ali rebeldes, feiosos, em descompasso, sem brilho, sem lado.
Quem mais atento ainda, que por me gostar, sabe observar, vê o sofrimento na minha barriga. Ela cresce, se expande, arredonda-se, quase engravida de dor. Quando tempos melhores apontam na esquina, a barriga fica magra outra vez.
E de tempos em tempos, sou a descabelada barriguda mais triste dessas bandas. Pura imagem distorcida de quem digo ser.
E não sou nada mais que diálogos mentais onde venço por ter razão, por estar cansada de não me convencer a arriscar um novo começo.


next page next page close

Hoje é dia de encomeda para a dona cegonha


Notícia quentíssima para a noite de hoje, que serve também como aviso para as mais desatentas:

A Lovehoney, a maior empresa britânica online de brinquedos sexuais e lingeries, compilou dados dos registros de nascimentos da Grã-Bretanha e descobriu que 16 de setembro é o dia mais popular de nascimentos.

Como o período de gestação médio de um bebê é de 40 semanas, o dia mais fértil, então, é 11 de dezembro. Ou seja, de acordo com as estatísticas mais bebês serão concebidos amanhã do que qualquer outro dia do ano.

Dezembro é também o mês mais popular para concepções. 9% dos bebês são concebidos neste mês e os 10 dias mais populares de nascimentos são em setembro.

Especialistas afirmam que o inverno é a época mais fértil, muito mais do que o verão, já que a qualidade do esperma é maior no frio.

Além disso, em dezembro, as pessoas estão em clima de festa e muito felizes. Agora que as pessoas estão fazendo compras pelas internet, ficam mais tempo em casa.

Fonte: Revista Crescer


next page next page close

Das cenas bonitas do dia-a-dia

É tanta conta pra pagar, casa pra limpar, feijão pra congelar, filme pra ver, sono pra dormir (desse tem muito guardado!) brincadeiras pra brincar, lista pra comprar, foto pra revelar, que me esqueço de apreciar. Simplesmente ver uma coisa bonita do meu dia. Um sorriso maroto do meu filho, um bom dia sem graça do moço com um lado do corpo paralisado, o horizonte que enxergo do portão da minha casa e que me mostra um verde infinito de eucaliptos que me fazem respirar melhor. Não vejo nada disso. Me esqueço de apreciar no momento em que acontecem. Por vezes, lembro tarde da noite, já na cama, mas penso que pode ser um pedaço de sonho.

Ando com um pouco de receio de não estar vivendo de verdade. Passo mais tempo preocupada do que aliviada. E nem é a sensação de alívio que vai me mostrar que estou vivendo bem. É a tal da tranquilidade, o momento de bobagem, de se jogar num pensamento preguiçoso, que não me cobra, não me amola, não me culpa. É essa danada que não me acompanha mais.

E sem ela, não aprecio e não rio de doer a barriga. Quando faço, parece que calculei os minutos que aquela pequena paz podia durar. Está errado.

O que eu faço pra mudar? Respiro e jogo primeiro o pensamento no ar, esse que está me perturbando. Conto pra mim mesma que não estou sendo legal comigo e por consequência com os outros. E me descolo um pouco de mim, dos meus fatos, das minhas verdades, para ver que o meu redor é rico e brilhante. E que eu escolhi grande parte do que vejo todo dia.

Um soluço me toma e passo a apreciar novamente os detalhes, não só os que vejo nos boards do Pinterest, mas aqueles que estão ali no meu colo e no meu quintal. Os melhores de sempre.


next page next page close

Casa nova

Depois de cinco anos de namoro, um filho de dois anos e sete meses, termos morado juntos por um ano e meio na casa de meu pai com meus irmãos; e depois de brigas familiares por pura falta de jogo de cintura de todos- o que nos levou a viver como um casal, mas que vive em casa separadas e divide as contas, veja só, alugamos nossa primeira casa.

Pequena linda e fresca. Sem quintal, mas com uma garagem acolhedora e espaçosa. E um corredor com sol onde vou colocar um banco reciclado e minhas plantas. Aquelas que vejo nas revistas de decoração e espero ter mão boa para que elas não morram.

Bem, quem casa, mas não faz casamento nem festa, não ganha presentes. E essa é nossa situação. Fiquei pensando que se enxoval ainda fosse moda, eu estaria com menos coisas para correr atrás hoje. Não tenho nada, nem um pano de prato. Mentira. Ganhei uma geladeira Brastemp, linda, escolhida na loja por mim. Um jogo de pratos da cunhada e uma jarra kitsh de plástico cor de laranja em formato de abacaxi com tampa verde, da colega de trabalho. Já são coisas preciosas.

Da casa do pai, com devida permissão, comecei a resgatar móveis possíveis de serem usados novamente com um pouco de trato. Um dom que não temos. Mas Alex garante que vai transformar um por um e que eu vou gostar muito.

Nos primeiros dias após fechar contrato pirei na internet. Olhava pro cartão de crédito e quase dava o clique de finalizar compra. Mas me segurei e continuo segurando até agora. Nos mudaremos no fim do mês e nem a almofadas da decoração comprei. Mas pra que, se nem sofá temos ainda?

O que eu faço? Ando fazendo assim: viajando nas coisas lindas que desejo e em outras que terei e respiro fundo. Li que a casa a gente faz vivedo nela, conhecendo-a, deixando que ela nos conheça. Então vou começar com o pouquinho que temos. E o filho vai gostar de ter um quarto só pra ele, ainda que com pouca decoração hoje, mas com um amor infinito.

 


next page next page close

Brechó inglês

Recebi uma sacola de Londres cheia de roupas. Veio de uma amiga tão querida, uma irmã de alma, uma filha de outra vida, uma celebridade no meu coração. Vintage me faz sorrir e me faz mais bonita, mais antiguinha com ares modernosos. Senti o cheiro daquela terra através das roupas de minha amiga, agora minhas melhores peças. Me vi no bus 29, entre um chuvisco e uma corrida ao Sainsburys.

Vou usar as saias, as camisas com um pouco daquele ar que acabei por (re)adaptar para o lado de cá. Minha irmã de pai e mãe, saiu no lucro. É toda magrinha e coube melhor em alguns vestidinhos e tops.

Entre Zaras e Topshops, fui relembrando o caminho que escolhi de volta pra casa, depois de 3 anos entre os ingleses e o resto do mundo todo. Era uma vida louca e boa. Estudar e ser garçonete. Depois ir para as baladas e ser vendedora. Depois viajar para países vizinhos por bagatelas. E assim me via no mundo. Conseguia chegar na menor partícula que forma o ser humano, como um pixel. Era isso que eu era: um pixel no mundo. E é isso que continuo sendo, mas lá em terras estrangeiras conseguia me reconhecer nessa vastidão, como um pedacinho que forma todas as coisas. Talvez sentisse isso por conta da distância, ou pelo poder de andar por ruas onde outras línguas eram faladas, senão a minha.

Deixei Londres e alguns bons e eternos amigos, que jamais voltarão a viver em suas terras natais: eles se inglesaram. E, embora não aconteça para todos, não é difícil se adaptar àquela cidade. Ela te abraça ao mesmo tempo que te consome. Te dá euforia e solidão como só as metrópoles sabem fazer. Mas te entra na alma de uma maneira tão feroz, que por vezes você acredita que está no lugar errado e tem que voltar para a sua Inglaterra.

Por hora, visto minha blusa ganhada de mangas coladinhas e vou tomar uma cerveja bem gelada.


next page

Apego

Ele já me deixou na mão diversas vezes. Fez barulhos inexplicáveis e piscou luzes...
article post

Da barriga

Se sofro ninguém vê. Tenho filho pra criar, não dá tempo de sofrer. Mas, quem se...
article post

Hoje é dia de encomeda para a dona cegonha

Notícia quentíssima para a noite de hoje, que serve também como aviso para as mais...
article post

Das cenas bonitas do dia-a-dia

É tanta conta pra pagar, casa pra limpar, feijão pra congelar, filme pra ver, sono pra...
article post

Casa nova

Depois de cinco anos de namoro, um filho de dois anos e sete meses, termos morado...
article post

Brechó inglês

Recebi uma sacola de Londres cheia de roupas. Veio de uma amiga tão querida, uma irmã...
article post